A IGREJA E O ESTADO – OS MALEFICIOS DESSA SUTIL APROXIMAÇÃO

Para se compreender as relações entre Igreja e o Estado após a concessão de liberdade de religião por Constantino, é necessário prestar atenção aos problemas políticos enfrentados pelo imperador nesta época. A anarquia do século da revolução, que arruinou a republica romana entre 133 e 31 a.C., terminou mediante o poderoso principado criado por Augusto após destruir o exército de Antonio. Este principado, no qual o imperador como príncipe dividia o poder com o senado, mostrou-se também fraco para superrar o desafio do declínio interno e da presença dos bárbaros na fronteiras do império; ademais, a prosperidade e a paz do primeiro período do principado foram seguidas por outro século de revolução, entre 192 e 284. Em 285, Diocleciano reorganizou o império em bases mais autocráticas, tomada de empréstimo dos despotismos orientais, numa tentativa de garantir a cultura greco-romana. Como o cristianismo parecia ameaçar esta cultura, Diocleciano fez uma fracassada tentativa de destruí-lo entre 303 e 305.

CONSTANTINO E SUA ASTÚCIA
Mais astuto do que Diocleciano, Constantino, seu sucessor, compreendeu que se o Estado não podia destruir o cristianismo pela força, o melhor seria usar a Igreja (representante do cristianismo) como um aliado para salvar a cultura clássica. O processo pelo qual a Igreja e o Estado chegaram a um acordo começou quando Constantino conseguiu o controle completo do Estado. Embora oficialmente dividisse o pode com o seu co-imperador, Licínio, entre 311 e 324, ele tomou a maioria das decisões importantes do Estado.

A VISÃO QUE SUPOSTAMENTE O FEZ PROMOVER A PAZ COM A IGREJA
Constantino (c.274-337) era filho ilegítimo do líder militar Constâncio com uma bela mulher livre cristã do Oriente, de nome Helena. Numa batalha, em 313, quando parecia que os inimigos lhe venceriam, Constantino teve uma visão de uma cruz n céu, com as seguintes palavras em latim: “com este sinal, vencerás”. Tomando-as como bom presságio, ele derrotou os seus inimigos na batalha da ponte Milvia sobre o rio Tibre. Embora a visão possa ter ocorrido, é evidente que o favorecimento da Igreja por Constantino foi um expediente seu. A Igreja poderia servir como um novo centro e unidade e salvar a cultura clássica do império. O fato de ter protelado o seu batismo até pouco antes de morrer e de manter a posição de Pontifex Maximus, sacerdote da religião pagã do Estado, parecem apoiar esta idéia. Ademais, a execução por ele ordenada de um jovem que poderia reivindicar o seu trono, não condiz com a conduta de um cristão sincero. Talvez tenha sido tudo uma mistura de superstição e sagacidade de governo. Correta ou não essa interpretação de sua intenções, o fato é que Constantino inaugurou uma política de favorecimento da Igreja Cristã. Em 313. Ele e Licínio garantiram-lhe a liberdade de culto pelo Edito de Milão.

BENEFÍCIOS À IGREJA
Nos anos seguintes, Constantino promulgou outros editos, que tornavam possíveis a recuperação das propriedades confiscadas, o subsídio da Igreja pelo estado, a isenção ao clero do serviço público, a proibição das adivinhações e a separação do “Dia do Sol” (domingo) como um dia de descanso e culto. Ele tomou uma posição teológica no Concílio de Nicéia, 325, quando arbitrou a controvérsia ariana. Apesar de o número de cristãos não ultrapassar a um décimo da população do Império nesta época, eles exerceram uma influência no Estado bem maior do que se podia esperar pela quantidade de membros que possuía.

OS FILHOS DE CONSTANTINO E A POLÍTICA DE FAVORECIMENTO
Os filhos de Constantino continuaram sua política de favorecimento da Igreja, levando-a mais adiante ao colocarem o paganismo na defensiva com editos que proibiam os sacrifícios pagãos e a freqüência aos templos pagãos.

OS REIS SEGUINTES
Os reis seguintes continuaram a prática de assegurar privilégios à Igreja até que o cristianismo se tornasse afinal a religião oficial. O imperador Graciano renunciou ao título de Pontifex Maximus. Teodósio promulgou em 380 um edito tornando o cristianismo a religião exclusiva do Estado. Em 392, o Edito de Constantinopla estabeleceu a proibição do paganismo. E em 529, Justiniano desferiu o golpe de misericórdia sobre o paganismo, quando determinou o fechamento da escola de filosofia de Atenas.

REVENDO OS CAMINHOS DA TRANSFORMAÇÃO DO CRISTIANISMO
Revendo os caminhos da transformação do cristianismo, de seita de poucos seguidores em religião oficial do poderoso Império Romano, pode-se concluir que, com a vantagem da perspectiva do tempo, essa vitoriosa marcha foi prejudicial à Igreja. É verdade que o cristianismo elevou o nível moral da sociedade ao ponto de a dignidade da mulher ser conhecida na sociedade, os espetáculos de gladiadores serem abolidos, os escravos receberam melhor tratamento, a legislação romana tornar-se mais justa e o avanço da obra missionária ter aumentado.

A igreja percebeu entretanto, que embora uma associação com o Estado lhe trouxesse benefícios, isto lhe traria também muitas desvantagens. O governo, em troca dos privilégios, da proteção e de ajuda que oferecia, achava-se no direito de interferir em assuntos espirituais e teológicos.

Infelizmente a Igreja ganhou em poder mas se tornou uma arrogante perseguidora do paganismo do mesmo modo que as autoridades religiosas pagãs tinham agido em relação aos cristãos. Parece que no balanço final, a aproximação entre Igreja e Estado trouxe mais malefícios do que bênçãos à Igreja Cristã.

O Cristianismo Através dos Séculos – Uma História da Igreja Cristã, capítulo 11.

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Published in: on março 22, 2009 at 7:57 pm  Deixe um comentário  

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