LEPRA: uma realidade brasileira.

O Brasil é o país no mundo com o maior número de portadores de lepra. Há uma ong que diz sermos os segundos, porque nos compara com a Índia, que tem um bilhão e quatrocentos milhões de pessoas; nós, temos cento e oitenta milhões. Então, que lá exista mais gente doente, é, pelo menos, óbvio. Proporcionalmente…

Em 1995, através do que é considerada uma conquista da dita ong, o então sociólogo-presidente promulgou uma lei, proibindo o uso da palavra lepra, mudando-a para hanseníase. Resta saber se a população sabe que se fala da mesma coisa.

Hoje, encontramo-nos em estado epidêmico; mas o Ministério da Saúde nega essa realidade, que pode conspurcar sua imagem no exterior. E eu me pergunto se, com os políticos que temos, ainda temos alguma imagem…

Eu tenho lepra; prefiro essa palavra, é mais esclarecedora. E me livra de dar muitas explicações quando pessoas, inclusive com doutorado, me perguntam “ hansen… o quê?” Lepra já diz tudo, principalmente para quem não é sociólogo. Levei quase três anos para receber um diagnóstico, pois os médicos quase nunca consideram essa hipótese.

Na verdade, enquadrada nas “doenças negligenciadas” pelo Ministério da Saúde (e pode haver tal categoria de doença?), durante o curso de medicina fala-se a respeito em apenas uma aula; quando falam. Minha sobrinha, recém-formada em excelente faculdade federal, jamais ouviu a esse respeito. Fiz o tratamento poliquimioterápico, mas estou altamente sequelada, o que significa que já não me encontro apta para executar qualquer trabalho.

Além disso, apesar de eu não ser mais um agente transmissor da doença, já que os bacilos estão mortos, sigo sob seus efeitos. O corpo necessita de, pelo menos, cinco anos para expelí-los; e isso causa uma dor insuportável. Meu sistema imunológico tem dificuldades em reconhecer meu sistema nervoso, que foi o alvo do ataque dos bichinhos. Então, o já combalido sistema nervoso segue sendo atacado, pois é considerado corpo estranho. E isso, não há remédio que conserte.

Como resultado da PQT (poliquimioterapia), fiquei com catarata na vista direita e, quase um ano após terminado o tratamento, ainda estou às voltas com uma esteatose hepática; se não for bem cuidada, pode degenerar em cirrose. A PQT, embora mate os bacilos, é uma bomba de efeitos devastadores… E não muito conhecidos pelo dito ministério, pois não existe um acompanhamento durante e pós-tratamento.

Como não consideram se o paciente é alérgico à sulfona, um componente da PQT gerador de grande transtornos; me pergunto por quê não fazem um teste para verificar se somos ou não alérgicos. Embora uma doença bastante estudada em todo o mundo, ainda não se conseguiu descobrir uma vacina que impeça esse mal. E o diagnóstico, em muitíssimos casos, é feito tardiamente, o que gera as seqüelas. E as seqüelas são irreversíveis.

O tema é extenso, seriam necessárias páginas para descrever o que é exatamente esse drama, que espreita cada brasileiro como uma caninana prestes a dar o bote, e é tão mal elucidado em campanhas televisivas: eu tive hanseníase, tomei a medicação e estou curada! Coisa mais absurda e patética! E incompetente!

Agora, surge mais um desvario, capitaneado por gente lá do sul do país, como se já não bastassem os tantos que pretendem abranger o tema: alguns desocupados, embora médicos (eu sempre digo que diploma de medicina está ficando por demais barato…), estão tendo a ousadia de afirmar que o Brasil encontra-se em processo de erradicação da hanseníase. Piada de mau gosto. Como se erradica o que mal se consegue diagnosticar, até porque pode ser, e o é, confundido com várias outras enfermidades? Se a única forma de prevenção é o diagnóstico precoce e início de tratamento o quanto antes, pois só assim a contaminação não se alastra? E la nave va (em bom italiano, “e lá vai o barquinho…”, sabe Deus pra onde!).

Saldo do rescaldo:

Um Ministério da Educação que não adequa o currículo de medicina às nossas reais necessidades.

Um Ministério da Saúde, que estabelece um conceito de “doenças negligenciadas”; afirma, em propaganda enganosa, que tem cura algo que inutiliza pessoas (jura, de pé junto, que 70% são curados; e os outros 30%, não merecem consideração?); não possui qualquer trabalho de acompanhamento de colateralidades durante o tratamento e pós-PQT; não se mexe para fabricar no país a medicação necessária, doada por uma ong holandesa. Aliás…

Repararam como estão falando a respeito da tuberculose? É que já chegamos a níveis aterrorizantes. Até então, o bicho comendo solto e eles, caladinhos… Um grupo de viajantes na maionese, que tem a ousadia de afirmar que estamos erradicando a doença (eles é que deveriam ser erradicados).

Um INSS que torna a vida negra, a quem, por direito legal, busca sua aposentadoria por invalidez (dá pra entender porque eu disse que seriam necessárias páginas?).

Eu, eterna portadora da lepra – à espera que o Senhor minore ou elimine as minhas dores. Você, que mesmo vivendo de forma e onde considere inatingível, já está com o bichinho aí dentro, só esperando a sua imunidade baixar um pouquinho.

Ah, sim…. e os que foram eleitos por nossos votos, sempre com malas e cuecas comprometidas. Paz em Deus.

Patrícia Neme nemepatricia@hotmail.com

Published in: on abril 15, 2009 at 1:22 pm  Deixe um comentário  

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